sexta-feira, 12 de junho de 2009

O Cego - Primeira Dose: Whisky

“Fuck you! Shit, you bastard!” — Lucas ouvia em sua TV LCD Scarlett de 42’, seu gosto tão protuberante para filmes exóticos de ótimo enredo como “O Agente Teen”, “Harry Potter” ou “Piratas do Caribe” exigia uma TV adequada, onde nela ele leria em alta resolução a legenda “Droga! Porcaria, seu doente!”. Mas o sol parecia imponente naquela bela tarde, e assim que o primeiro feixe de luz atravessou um pequeno vão entre duas cortinas, ele logo indagou-se porque ele ainda continuava fechado em casa... Olhou em sua volta, sua tão bagunçada quanto enorme sala não o permitia encontrar o controle remoto, e porque raios ele iria até a maldita TV para desligá-la? Após esfregar uma de suas mãos um pouco em sua cabeça de cabelos moreno-claros chegou à conclusão de que não haveria uma resposta que se amoldaria. Não perdeu mais o seu precioso tempo, levantou-se de uma vez e foi até seu guarda-roupa, calçou seus tênis caríssimos de uma grife famosa que todos de sua época usavam... A marca em questão parecia ter um slogan subliminar, era como se cada pessoa que a usasse tivesse um enorme adesivo na testa escrito em negrito “Ei, não tenho um pingo da maldita personalidade”. Mas Lucas namorava tanto a marca que a usava em todas suas peças de roupa, às vezes variando um pouco para outras grifes (todas pareciam ter o mesmo slogan subliminar!). Depois de se embonecar todo, foi ao espelho do banheiro da suíte mais próxima (a de hóspedes). Foi sem dúvidas arrumar seu cabelo. Passou dois dedos em cima da franja empurrando-a ligeiramente à 45 graus para leste (no caso, sua direita). Sem tocá-la depois, colocou seu belíssimo boné que mais parecia um carnaval de tão enfeitado da — Adivinhem só! — mesma maldita marca... Mas Lucas odiava ter que ir até o espelho, odiava porque sabia que na verdade iria se apaixonar... Ele se olhava tanto naquela merda que não agüentava, precisava registrar o momento, precisava mostrar para todos em seu perfil online como estava lindo. Pegou seu celular com câmera de oito megapixels, e começou uma seção de fotos mais demorada que um book de modelo. Suas fotos eram interessantes e mostravam o seu nível de personalidade. Por exemplo. Em uma foto ele estaria olhando para o além com uma de suas mãos abaixo do queixo — como quem diz “Sou um cara pensador” — em outra foto ele estaria então olhando para o além, com a outra mão debaixo de seu queixo... Ao fim de todo o ritual, ele pegou seu celular e ligou para seu amigo, Marcelo:
— E ae Má, moleque!
— I aí, velho!
— Pra onde vamos, tio?
— Pra lugar nenhum... Tô doente...
— Ah... De boa cara! Falou!
— Falou!


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